Amores Sintéticos

Prólogo

Rígel-trinta passava a mão pelas prateleiras, escolhendo as maletas enquanto falava pelo comunicador:

— Combinado… Estou saindo daqui a pouco, devo chegar em trinta ou quarenta minutos… Certo, entendi, eu sei onde fica… Até breve.

Desligou o comunicador, puxou a maleta com amostras em tons terrosos e estampas xadrez, conferiu os catálogos e saiu do escritório.

Na verdade, dificilmente poderia chamá-lo assim. O espaço tinha pouco mais de um metro de largura, mal o suficiente para permanecer em pé. De um lado, prateleiras até o teto guardavam amostras de tecido — ele era vendedor. Do outro, dois ganchos acolchoados permitiam que se pendurasse pelas axilas para descansar.

Apesar de pequeno, era silencioso e confortável. Um lugar para chamar de seu, onde trabalhava e vivia a maior parte do tempo.

Perfeito para um robô.

Rígel-trinta trancou a porta atrás de si e caminhou pelos corredores do enorme armazém da fábrica de tecidos até alcançar as ruas lotadas. Dali, seguiu direto para o metrô.

Algumas pessoas diminuíam o passo ao vê-lo passar. Outras cochichavam, cutucando discretamente quem estava ao lado. Não eram poucos os que levantavam o comunicador para registrar sua passagem. Rígel retribuía todos os olhares com um sorriso educado e um breve aceno de cabeça, indiferente ao fato de que era capaz de provocar nos humanos uma alegria equivalente à de estar na presença de uma celebridade.

No metrô, uma senhora com dificuldade para caminhar hesitou ao vê-lo se aproximar. Quando ele lhe ofereceu o braço, ela levou a mão à boca, surpresa, aceitando a ajuda quase sem acreditar. Durante todo o trajeto até o vagão, agradeceu repetidas vezes, observando-o com um sorriso de orelha a orelha enquanto temia que ele desaparecesse a qualquer instante.

A viagem seguiu assim por quase todo o percurso.

Mas o ambiente amistoso mudou assim que o trem o deixou próximo ao destino. Ao sair da estação e entrar naquele bairro afastado, os olhares tornaram-se mais tortos, e os sorrisos, mais amarelos.

Rígel-trinta seguiu seu caminho sem perceber diferença alguma. Cumprimentava todos com o mesmo entusiasmo animado de antes, alheio às caras amarradas e xingamentos que eram proferidos às suas costas.

Chegou ao endereço combinado e encontrou-se com o cliente. A negociação transcorreu sem incidentes, e a venda foi concluída pouco antes do anoitecer. Despediu-se com um sorriso largo e um aceno energético antes de iniciar a caminhada de volta à estação de metrô.

No caminho, quando passava em frente a um enorme galpão, foi abordado por um homem:

— Boa noite, será que pode me ajudar?

O sujeito usava roupas escuras, um capuz que cobria a cabeça e uma balaclava ocultando quase todo o rosto. Rígel-trinta, cuja inteligência artificial era incapaz de detectar qualquer tipo de ameaça na figura sombria e ameaçadora à sua frente, não hesitou ao responder com um sorriso:

— Mas é claro, senhor! Do que precisa?

— Venha aqui para dentro — disse o homem, puxando o robô pelo braço em direção ao galpão.

O portão se abriu devagar, produzindo um rangido agudo. Rígel deixou-se conduzir pelo homem e entrou na construção antiga, onde dezenas de pessoas aguardavam. Todas tinham o rosto coberto, algumas com lenços, outras com máscaras lisas semelhantes a rostos de bonecos, e quase todas apontavam a câmera do comunicador para ele.

Seu cérebro robótico registrou a cena com curiosidade. Em vez de enviar sinais de perigo que o fariam recuar, começou a imaginar que tipo de ajuda aquelas pessoas poderiam precisar. Talvez quisessem alguma aula sobre vendas.

Atrás dele, o portão se fechou com um estrondo semelhante a um trovão. Os cochichos começaram imediatamente.

Então uma luz forte se acendeu. A poucos passos dali, Rígel viu uma máquina enorme: um quadrado de aço repleto de engrenagens e dentes metálicos pontudos. Ao lado, uma mesa exibia ferramentas espalhadas — serras, martelos e furadeiras — além de armas de fogo de diferentes calibres.

O robô começou a ficar realmente preocupado. Se esperavam sua ajuda, primeiro ele precisaria entender como tudo aquilo poderia ser usado em conjunto, e temia decepcioná-los caso não soubesse. Seu cérebro passou a calcular possíveis formas de utilização das ferramentas e armas, mas, sem chegar a nenhuma conclusão lógica, o desespero começou a crescer.

De repente, a gritaria começou. As pessoas avançaram sobre o robô e o agarraram. Sem qualquer explicação, passaram a agredi-lo com chutes e pontapés. Rígel-trinta olhava de um lado para o outro, incapaz de compreender o motivo daquilo. Suas roupas foram rasgadas enquanto o arrastavam em direção à grande máquina.

Ao redor, os que não participavam da agressão filmavam tudo, apontando suas câmeras e rindo enquanto o robô se tornava cada vez mais danificado.

Alguém puxou o braço de Rígel-trinta, esticando-o até o limite, a ponto de seus nervos artificiais quase desligarem os sinais de dor. Antes que isso acontecesse, uma serra cravou os dentes próximo ao ombro e começou a rasgar sua pele. Horrorizado, o robô viu as camadas de tecido e músculo sintético serem dilaceradas, até que o metal brilhante dos ossos surgisse sob os fragmentos destruídos. A serra não parou. Continuou avançando, implacável, até separar completamente o membro robótico de seu corpo.

O grito de alegria da multidão se misturou ao rugido da máquina ao ser ligada. Seus dentes e engrenagens começaram a girar. O braço decepado de Rígel foi arremessado para dentro dela, e do outro lado saíram apenas minúsculos fragmentos de plástico e metal triturados.

Rígel-trinta não conseguia compreender o que estava acontecendo. Nada daquilo fazia sentido. Era um robô prestativo e, até onde sabia, não apresentava defeito algum. Durante as últimas horas daquele martírio, seu cérebro tentou desvendar o mistério, sem sucesso. Quando foi desligado pelo disparo de uma arma de fogo, seu algoritmo ainda permanecia preso em um laço sem resposta.

Já os humanos ao seu redor…

sabiam muito bem o que estavam fazendo.




Esta história segue por dois caminhos:
a sensibilidade intuitiva de Noemi
ou a razão analítica de Rômulo.
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